Professor Dan Caragea offers the first translation in portughese of „The Book of Whispers” – O livro dos sussurros!
«Nós não nos diferenciamos pelo que somos, mas sim pelos mortos que cada um chora»,
disse o meu avô Garabet
UM
Eu sou, antes do mais, aquilo que não consegui cumprir.
A mais autêntica das vidas que tenho, como uma mão cheia de serpentes atadas ao rabo, é a vida não vivida. Sou um homem que viveu imenso neste mundo. E que, em igual medida, não viveu.
Os meus pais estão vivos. Isto significa que ainda não nasci por completo. Eles vão arredondando um pouco os meus ombros angulares. Ainda vertem alma dentro do meu peito, que vai mudando os seus contornos, tal como as ânforas dos antigos gregos que davam forma ao vinho que engrossava lá dentro. Ainda retocam o meu rosto acobreado.
Porque ainda não nasci por inteiro, a morte ainda está bastante longe. Sou tão jovem que poderia amá-la, como se ama uma linda mulher.
O meu primeiro mestre foi um anjo velho. Quem nos olhasse ao longe, no pátio, veria um menino sentado aos pés de uma nogueira gigante. Na verdade, sentava-me aos pés daquele anjo velho, que era o meu mentor. A sua sombra cheirava a iodo e os meus dedos, escrevendo, manchavam-se com as suas sombras, como se fosse sangue coagulado. Nem sabia de quem era a ferida, se minha ou dele.
Foi com ele que aprendi que o nome não serve para nada. Até o meu, ao escrevê-lo sem maiúscula, como se fosse o nome duma árvore ou de um bicho. Comunicávamos entre nós sem palavras e estava tudo bem, como quando corremos descalços na relva. Não ficam rastos, por isso andar na relva é sem pecado. Atirava as sandálias e corria no campo marginal à cidade. A sua sombra deitava-se sobre a minha, e éramos felizes.
Num belo dia, o velho anjo desapareceu. Olhei perplexo a nogueira, o seu tronco largo, as folhas carnudas. Nos ramos poisaram pássaros. No outono o vento sacudiu os ramos e as nozes caíram ao chão. Parti-lhes a casca e comi-as. Eram saborosas. Comi do seu corpo. Desde então nunca mais procurei o velho anjo. Permaneceu só o cheiro a iodo e, às vezes, ainda consigo ver as manchas preto-esverdeadas nos dedos. Sinal que por baixo a carne ainda não está curada.
A Focsani da minha infância era uma cidade com ruas largas e casas imponentes. À medida que eu crescia, as ruas ficavam cada vez mais estreitas e as casas diminuíam. Na verdade, sempre foram assim, mas os meus olhos de criança davam-lhes, como a todo o mundo à minha volta, as proporções enormes só minhas. Nas fundações das casas e nos pilares das varandas não deviam usar vigas de madeira seca, mas sim troncos vivos. Assim, as casas cresceriam ao mesmo tempo que os homens, o mundo não minguava e o tempo não encurtava.
Pouca coisa havia mudado desde a Segunda Guerra Mundial. O nosso bairro, a leste da cidade, não tinha as ruas calcetadas, os passeios também não, e distinguiam-se da rua apenas por um rebordo em pedra de um palmo de altura. As vedações eram em madeira, às vezes pintadas de fresco. As ripas de madeira eram de tamanhos diferentes, pregadas umas por cima das outras, sem ser pintadas ou caiadas. À beira das cercas crescia camomila. As suas flores, pequenas e perfumadas, eram apanhadas à chegada do Outono. A minha avó punha-as no pátio a secar, para as infusões curativas durante o inverno. Tal como fazia com as metades de alperce, no verão, e, um pouco mais tarde, com as ameixas e as fatias de maçã. As frutas secas matavam a fome, porque se mastigavam longamente. E se tivéssemos paciência para as mastigar bastante começavam a saber à carne.
A nossa rua era curta. Tinha apenas dez casas, e, na esquina, o muro de uma fábrica de gelo a que chamávamos «Frigorífero». O nome da rua era «6 de Março de 1945». Por baixo, na placa, havia uma pequena explicação: «Instauração do primeiro governo democrático». Depois da revolução de 1989, quando os da Câmara Municipal deixaram de achar o governo de 1945 suficientemente democrático, a rua passou a chamar-se Jiliste[1], por motivos que desconheço. Na altura mandei uma carta para casa. Só chegou passados alguns meses. Os Correios enviaram-na primeiro para o concelho de Vrancea, mas para a aldeia de Jiliste, pareceu-lhes mais lógico. O sangue corre mais devagar que o tempo. Por isso demora tanto mudar os costumes. Já outro nome foi muito mais inspirado, apenas umas ruas mais abaixo: Rua da Revolução. Depois de 1989 o nome ficou o mesmo. Cada um podia pensar na revolução que mais lhe agradava.
Quando chovia, na nossa rua formavam-se riachos que desaguavam uns nos outros. Tinha acabado de descobrir o nome daqueles leitos, onde, quando o sol queimava intensamente, a terra ficava muito fina, igual ao pó. Os leitos chamavam-se valetas. As cascas de noz eram os navios dos rápidos riachos da valeta. Enchíamo-las com lama quente como a massa de pão e enfiávamos uma pena de peru a fazer de mastro.
Raramente passavam carros. Passavam, sim, carroças com bidões de alumínio cheios de leite. Ao virar da esquina havia um centro de recolha e transformação de leite. As pessoas sentavam-se em fila, cada um com a sua leiteira. Pendurávamo-nos no eixo da carroça e andávamos um pouco assim. Um ou outro cocheiro, zangado com a vida porque as contas do leite não lhe tinham corrido bem, dava-nos com o chicote nas costas. Saltávamos da caroça e ele lá dava um grito, mandando os cavalos andar.
Naquele tempo, não havia blocos de apartamentos na cidade, e dava para contar pelos dedos da mão as casas com andares. Com um primeiro andar e águas-furtadas tinham sido as lojas dos judeus da Rua Grande. No terramoto de 1940, os andares tinham desabado, as lojas quase que encolheram e apoiavam-se umas nas outras.
As pessoas do nosso bairro eram pobres. Nós também não nos podíamos gabar muito, só que os meus pais eram letrados, engenheiros. Raramente chegavam os jornais, as novidades vinham através do noticiário do cinema ou então pela rádio, uma caixa amarela pendurada na parede que dava as notícias, música folclórica e coros patrióticos. Quando a dona Maria, vizinha da frente, comprou uma televisão, foi o maior evento da nossa rua. A televisão, marca «Rubin», era, como quase tudo naquele tempo, soviética. Tinha o ecrã do tamanho de um prato. Nas noites quentes, a dona Maria punha-a no quintal e cada um levava uma cadeira de casa. Adormecia logo, enroscado na minha cadeira, mas sentia-me como gente crescida. O que vi acordado do princípio ao fim, porque era transmitido à hora do almoço, foi os funerais de Estado. Primeiro o de Leontin Stalajan, ministro da Defesa, depois o de Gheorghe Gheorghiu-Dej[2]. Horas a fio o povo olhou para o cortejo fúnebre, mais com curiosidade do que com pesar, bebendo aguardente e fazendo comentários como se fosse um jogo de futebol. Estes funerais eram demasiado raros para o gosto do meu avô Garabet e principalmente para o do seu cunhado, Sahag Sheitanian. Fora disso, nada acontecia no nosso bairro.
Entretanto desapareceram as chamas. Retiraram-se zumbindo nos cabos elétricos, escondidas nas paredes ou enterradas no solo. Mas, na minha infância, as chamas apareciam sempre. Fosse a chama brincalhona da vela ou a chama mais calma da lanterna de petróleo. O palpitar enrubescido das brasas na lareira. As chamas debaixo da panela onde borbulhava a marmelada. Ou então, aquela debaixo da caldeira preta onde fervia o alcatrão para os cartões dos telhados ou onde se derretia a banha para preparar o sabão. A chama irrespirável das folhas queimadas, na primavera. As noites eram naquele tempo mais longas e mais ricas, com menos luz e sombras mais vivas. No jogo das sombras projetadas nas paredes, muitos fantasmas pareciam vivos. O fogo era um ser vivo, sentava-se à mesa ao nosso lado, escorria com as suas sombras pelos ombros, alongava-nos os rostos e aprofundava-nos o olhar. Muitas histórias, daquelas paredes animadas, depois de as escutar, contavam-se sozinhas outra vez. Por isso, a minha infância foi mais livre e mais rica. Até os mortos estavam melhor assim.
Outros acompanhantes da minha infância foram os odores. De todos os sentidos, o olfato é o mais carregado de memórias. Basta abrir uma porta por onde passa um aroma familiar, e todos os acontecimentos ligados àquela sensação regressam à memória. Uma vida inteira podia ser descrita através dos seus aromas. Do mesmo modo, podia ser contada a minha infância.
Antes de mais, o cheiro da massa quente. Se pudesse concentrar toda a minha infância numa única forma da matéria, diria «massa». Para ser mais exato, a massa quente da masseira da minha avó. Crescia durante a noite, até ao amanhecer como um ser vivo. Estava fascinado. E tão ligado à vida que crescia nela, que sentia que cada movimento das mãos que a amassavam lhe doía. Só descansava quando via a minha avó Arshaluis, Aurora em romeno, e a irmã dela, Armenuhi, estendê-la e acariciá-la até se transformar em folhas finas. As mulheres punham lençóis lisos em cima das camas e das mesas, em cima dos quais estendiam as folhas finas de massa para baklavá [3].
Naquelas noites dormíamos amontoados nos sofás. As folhas não podiam ser incomodadas por nenhum movimento ou barulho. Passávamos perto delas com muito cuidado e sussurrávamos. De vez em quando, a avó acordava, e, à luz da lanterna, untava-as com óleo misturado com ovo. Pela manhã, secas como umas placas de argila e estaladiças como o feno seco, eram colocadas umas em cima das outras. Entre elas punha-se noz moída e por cima, regava-se com uma calda quente. As margens eram recortadas para ficar com a forma dos tabuleiros, e tostavam lentamente no forno. Aos domingos, ao almoço, o avô Garabet cortava a baklavá com uma faca comprida, e repartia por todos, fatias iguais.
A mesma faca era usada para cortar a carne seca de vaca, a que chamávamos, como em turco, pastrama. A carne era pendurada no beiral, seca pelo vento e adocicada pela luz. «De tudo, dizia o avô, o melhor é o sabor do vento. Tens que saber como o deixar penetrar na comida». A carne seca deixava-se de molho numa pasta, chamada cemen, vinda de Erevan. O avô pegava na faca e cortava a primeira fatia. Íamos ao pátio e olhávamos através da carne avermelhada. «Não se vê a lua», dizia eu. E o avô: «Não está bem». Afiava a faca na pedra húmida e cortava outra fatia. A carne fininha, atravessada pelos raios da lua, ganhava um tom amarelado. «Agora já se vê», dizia. «Então está bem, concluía o avô, a luz e o vento ficam mais saborosos juntos. Só assim o fruto está maduro e a carne se corta como deve ser».
O cheiro da fruta perfumava toda a casa. Principalmente no Ano Novo quando os Arménios ainda estão em jejum do Natal e cozem em grandes panelas anush-abur, que poderia ser traduzido como “sopa doce”. É uma espécie de koliva[4], só que junto com o trigo cozido misturam-se todo o tipo de frutos secos: figos, tâmaras, passas, nozes, casca de laranja, e, por cima, polvilha-se canela em pó.
Depois vem o cheiro dos esconderijos. Lugares escondidos, à sombra ou à vista, mas que são abertos raramente e, ainda mais empolgantes, os lugares proibidos. Sem esconderijos para vasculhar, a infância não faz sentido. Apenas aquilo que está escondido merece realmente ser visto. O aroma dos esconderijos vem acompanhado pelo silêncio que também tem os seus aromas. Primeiro, os roupeiros debaixo dos quais estavam dobrados os edredons e os colchões. No roupeiro da avó, guardavam-se só as roupas pesadas, os sobretudos, a cheirar a naftalina, alguns dos quais tinham pertencido à minha bisavó, Heghine Terzian. Da roupa do meu bisavô não se tinha salvado nada, tudo tinha ficado numa rua de Constantinopla, de onde se via o pôr-do-sol por cima do Bósforo. Tinham fugido numa noite apenas com a roupa que tinham vestido e com pouca coisa que conseguiram levar à pressa, e que podiam vender facilmente. Corria o boato que no porto da Pera tinha atracado um navio que recebia refugiados arménios. Ao subir o pontão, no meio da multidão confusa e assustada, o meu bisavô caiu de joelhos e tombou com a cara virada para baixo, segurando a mão das duas filhas. Viraram-no, fecharam-lhe os olhos e soltaram as mãos das filhas. Velaram-no e encontraram um resto de uma vela, sabe Deus de onde. Não foi o único a dar o último suspiro naquela confusão aterradora. Antes de chegar a Constança[5], o comandante deu ordem para que todos os mortos fossem atirados ao mar. E foi assim que o Mar Negro se tornou o jazigo movediço do meu bisavô Baghdasar Terzian.
Depois havia o armário dos livros. O avô Garabet conhecia quase todos os alfabetos: latino, cirílico, grego e árabe. «Para não te enganares, dizia ele, o alfabeto é o início por isso se chama “alfabeto”. Podes começar por onde quiseres, desde que consigas desvendar o início.» O meu avô desvendou os inícios, mas baralhou os fins. No leito da morte, nós, as crianças, fomos chamadas para o ver. Não entendia o que dizia. Parecia sereno e falava com muita sabedoria. Mas não conseguia entendê-lo. Depois, o pai explicou-nos que o avô tinha falado misturando as línguas: persa, árabe, turca, russa e arménia. Todas as terras que tinha conhecido na infância e adolescência tinham ressuscitado nele. Tal como, quando estamos com pressa para partir, agarramos nas primeiras coisas que vêm à mão, assim ele, antes de se ir embora deste mundo, pegou nas palavras ao acaso.
Com os livros era a mesma coisa. Havia livros em turco, com caracteres antigos, orientais, manuais de desenho em inglês e antigas edições Larousse. O avô folheava muitas vezes um livro esplêndido, em alemão, sobre tapetes. «Os nossos tapetes, dizia ele, são como a Bíblia. Encontras tudo neles, desde o princípio até aos nossos dias.» Procurávamos os dois as caras do mundo. «Este é o olho de Deus», adivinhava eu, e o avô Garabet confirmava. «E este é um anjo.» «Não é anjo. É muito velho, deve ser um arcanjo. Talvez Rafael, é o mais velho de todos.» Queria falar-lhe do anjo velho do pátio que no verão cheirava a iodo, e no inverno lavava os pés descalços na neve. Compreendi, no entanto, que as pessoas que não tiveram uma infância sem medo jamais poderiam ter-se cruzado com anjos velhos. E assim o avô chegava à página de que mais se orgulhava: o tapete tecido por ele próprio. Aquele tapete tinha estado no nosso quarto, o quarto das crianças, e agora está no quarto da minha filha, Armine. «É muito importante ter por cima da cabeça um teto sólido, e por baixo dos pés, um tapete gross», dizia o avô. O nosso tapete persa era denso, trabalhado à mão, com muitos nós. «Um tapete tem que ser tão denso, explicava o avô, que se o enrolares pese tanto quanto o tronco de uma árvore da mesma largura.» O nosso tapete passou pela história e não de uma maneira qualquer. Em Agosto de 1944, entraram as tropas soviéticas na cidade de Focsani. Três oficiais foram alojados na nossa casa. Beberam a noite inteira até ficarem completamente bêbedos. O meu avô e o seu cunhado, Sahag Sheitanian, o marido da tia Armenuhi, estiveram de vigília até de madrugada, saltando cada vez que um russo deitava uma beata acesa no tapete. Entre empurrões e insultos, Garabet e Sahag apanharam todas as beatas. Mas ficaram duas ou três marcas que ainda hoje se notam. O avô tinha uma visão verdadeiramente kantiana do mundo: teto por cima da cabeça, o altar à nossa frente, e um bom tapete por baixo dos pés.
Não conseguia ler todos os livros que tínhamos em casa, mas conhecia-os pelo cheiro. O avô Garabet ensinou-me a conhecer os livros assim. Um bom livro cheira de uma certa maneira. Bem encadernado com capas em pele, cheira quase a ser humano. Às vezes dou comigo nas livrarias a cheirar os livros. «Parece que sou cego», dizia eu. «E depois?», levantava os ombros o avô Garabet. «De tudo que tu és, os olhos são o que menos te pertence. A luz é como um pássaro que põe os ovos em ninho alheio.»
Compreendi os livros, primeiro, apalpando-os e cheirando-os. Não era o único. Entre as folhas via às vezes um bichinho avermelhado. «Não o mates», dizia o avô. «É o escorpião dos livros. Cada mundo tem que ter os seus bichos. O livro é também um mundo. Os bichos estão destinados a alimentar-se dos pecados e dos erros do mundo. Este escorpião também: corrige os erros dos livros.» Durante muito tempo não acreditei nele. Mas agora, o narrador sou eu, uma espécie de escriba que quer emendar erros antigos. Sou, portanto, um escorpião de livros.
Depois, o outro cheiro, que me levou a infância para longe, entre as especiarias do Oriente: o aroma do café. Os meus avós trouxeram este ofício da Anatólia, a terra natal. Preparavam o café naturalmente, assim como um oleiro sabe pelo sabor se o barro está bom ou não para ser moldado. Preparavam-no com distinção, desprezando os que tomam café sem conhecer os seus segredos.
Primeiro, os meus avós não compravam café torrado ou ‒ Deus nos livre! ‒ moído. Tínhamos uma frigideira em cobre, já preta de tanto torrar. A tampa tinha um mecanismo, movido por uma manivela que fazia com que os grãos ficassem torrados por igual. Esta operação, em lume brando, demora cerca de uma hora. Tudo o que nos recebíamos, como crianças, eram uns grãos torrados. Chupávamos como se fossem rebuçados e, quando deixavam de ter sabor, partíamo-los entre os dentes e mastigávamo-los.
Seguia-se a moagem. Vejo ainda hoje, em coleções de famílias snobes, moinhos cilíndricos com tampas bicudas, douradas e com arabescos, ao lado de outros objetos inúteis como os samovares ou os ferros de engomar a carvão. Na minha infância, o moinho de café era um membro da família. A moagem demorava imenso tempo. Os velhotes juntavam-se no pátio. A avó punha almofadas macias nos bancos de madeira com braços em ferro forjado. Moíam à vez, contando de cabeça até aos cem. O que moía não falava para não se enganar na conta. Se por ventura falasse, era porque o assunto era sério. Parece que estou a vê-los por baixo do damasqueiro do pátio: o avô Garabet Vosganian, com muito tato, e o olhar de espalhador pelo mundo, Sahag Sheitanian, o seu cunhado, mais inquieto e má-língua, Anton Merzian, o sapateiro, que contava sempre a mesma história sobre o rapto da sua mulher, Zaruhi, da casa dos seus pais, de Panciu. O caminho de vinte quilómetros até Focsani, feito a cavalo há quarenta anos, tomava para o contador a magnitude do êxodo do Egipto. Cada vez exagerava mais, já que Zaruhi, surda que nem uma porta, não podia contradizê-lo. Ainda havia o Kirkor Minasian, o outro sapateiro da Rua Grande, com quem Anton Merzian estava sempre numa competição feroz. Também estavam lá Ohanes Krikorian e Arshag, o ruivo, sineiro da igreja arménia, o caçador de pássaros. E à volta deles, as mulheres, gordinhas, com as mãos no colo e cheirando a água-de-colónia. Arshaluis, minha avó, a irmã dela Armenuhi, depois Parantzem, Zaruhi, Satenig.
A moagem do café demorava mais ou menos mil e quinhentas rotações. O moinho ficava quente. Até não se conseguir segurá-lo mais na mão, dizia o avô. Até que o café pareça areia, dizia ele. Mas isso só quando Sahag Sheitanian não estava presente. Ele não gostava da areia.
Às vezes, passavam-me o moinho para dar também à manivela. O latão aquecia e pelas juntas sentia-se o cheiro do café. De vez em quando, o avô espalhava um pouco de café na palma da mão, cheirando-o como um detetive deliciado com a captura de estupefacientes. Muitas vezes, o avô ordenava mais uma volta e os velhotes obedeciam só para o pó aromático ficar ainda mais fino.
O passo seguinte era ferver o café. O ibrik[6] era cónico, de boca mais estreita. «Para que os vapores se juntem e comece a assobiar, dizia o avô. Quanto mais se juntam os vapores mais saborosa fica a cozedura.» De vez em quando, mistura-se o conteúdo. Até nisto tem algo típico: o ibrik fica no lume até que o líquido ameaça ferver. Então tirava-se com uma colherzinha o creme que se formava e punha-se numa chávena. Depois o ibrik voltava ao lume. E outra vez, até que fazia espuma para todas as chávenas preparadas. Gostava de estar ao lado do avô quando fervia o café. Era habilidoso e sábio. Contava-me as coisas mais inacreditáveis naquela altura. «Enquanto se prepara o café, dizia ele, pode-se dizer tudo o que nos passa pela cabeça. Tudo é perdoado. Quem se junta à volta do café não se pode zangar. Depois, cada um faz o que quer.» Era o seu momento de liberdade. Nessas alturas era parecido com o meu anjo velho.
Agora acerca das chávenas. Como outros hábitos esquecidos, também este desapareceu, o de tomar café. Hoje toma-se em qualquer tipo de chávena, muitas vezes até em chávenas grandes, de água. Bebe-se café solúvel que não deixa borra nem espuma. «A espuma, explicava o avô, misturando com a colherzinha, é o brasão do café.» As cadeiras já não são macias, dispostas em círculo, preparadas para a conversa. As pessoas tomam o café logo de manhã, ainda ensonadas e sem vontade de conversar. E, para muitos, o café é apenas o pretexto para puxar de um cigarro.
As chávenas de café eram pequenas, em cores bonitas e faziam sempre conjunto com o pratinho. O ibrik traduzido em turco era gezve, e as chávenas eram fingean. Todos os utensílios tinham nomes turcos, e até o café era dito às vezes em turco khaife. Provavelmente, os meus avós, vendo as mesmas coisas no passado, com os avós deles, nas margens do Bósforo ou Eufrates, as lembranças e as palavras tinham-se misturado.
Os velhos do meu tempo tomavam o café pelas seis horas da tarde. Todo o cerimonial da preparação convidava já para uma conversa agradável. Encontravam o lugar entre as almofadas e bebiam o café sem pressa, sorvendo-o ruidosamente e dando alguns estalidos com a língua. Era a altura em que, apesar da errância, das lembranças sangrentas e do passar do tempo, o mundo parecia inalterado e calmo, e as almas reconciliadas.
O avô pegava no violino e cantava até a borra secar nas chávenas, desenhando caminhos sinuosos. A avó não costuma ler no café porque o avô dizia que o que está escrito acontecerá sempre. E as infelicidades são dadas ao mundo, como a erva ou a chuva. Se quiseres contorná-las, elas vão acontecer à mesma, apenas vais atirá-las para cima de outras pessoas. E então, além de tudo que estás a padecer, para quê ficar com mais um pecado?
Agora vou falar um pouco do outro avô, do avô materno, Setrak Melikian. Era um homem bom e alegre. Conformou-se com tudo o que a vida lhe deu. E com tudo o que lhe tirou. E se lhe tirou mais do que lhe deu, já ninguém faz a conta. Levantava os ombros, batia as palmas e seguia rindo. Tal como Ésquilo no campo da batalha de Salamina. Essa era a sua filosofia de vida, acima dos tempos ou dos homens. Caso contrário, só dando de caras com as próprias lembranças podia perder a cabeça.
A família da minha mãe era originária da Pérsia. O mais antigo antepassado identificado tinha sido uma espécie de príncipe, cujos domínios se estendiam a leste do lago Úrmia[7], nas terras que hoje pertencem a Tabriz[8]. Chamavam-lhe Melik, o que em persa significa «príncipe». Daí o apelido da minha mãe ser Melikian, ou seja, os Melik.
O príncipe Melik lutou contra os turcos até que, percebendo que era uma batalha perdida, pegou na família e nos bens que tinha e mudou-se para as montanhas de Karabagh[9], mais a norte. E outra vez, empurrado pelos invasores, parou nas plataformas das montanhas que rodeiam Erzerum. Esta história tem trezentos anos, se não mais. Melik teve sete filhos. Junto com as famílias deles fundaram uma povoação chamada Zakar.
O avô Setrak brincava comigo. Dávamos nós numa corda e contávamos. Às vezes, imaginava a corda como uma corda bem grossa, pendurada num sino. Balançava com o vento ou com o impulso do braço de algum viajante solitário. Assim, o sino tocava. Sempre imaginei assim um sino, como a voz mais adequada do meu povo. Cada nó, como um punho fechado, seria um antepassado meu. A corda era na realidade uma série de punhos fechados. Eu e o meu avô Setrak rezávamos então a nossa crónica. Dizíamos que o primeiro era o Melik. Era o nó mais perto do sino. Tão perto que o sino soava às vezes como um cavalo a galope. O seguinte seria o meu trisavô Haciadur. Um homem altivo e rico que descia até Constantinopla a cavalo. Os comerciantes conheciam-no e convidavam-no a entrar. O avô contava como era o serviço de chá, em prata, com as asas banhadas a ouro, usado por três gerações, e do olhar espantado do comerciante quando viu como uma pessoa só pode ter tanto dinheiro na bolsa. Todavia, o velho Haciadur era um homem comedido. Apesar de serem de sangue nobre, os Melikian contentavam-se com a vida dura de pastores.
O meu bisavô David Melikian foi um homem letrado. Tinha estudado em Constantinopla, no Robert Collège. Escrevia poesia e tinha uma caligrafia tão bonita que vinha gente das aldeias vizinhas, até de Erzerum, só para ele lhe escrever as cartas. David Melikian foi dirigente daquela terra, uma espécie de presidente da Câmara hoje. Quando chegaram os janízaros, na primavera de 1915, meteram-no numa casa que mal tinha começado a ser erguida e apedrejaram-no até à morte. Assim foram mortos os arménios mais notáveis também noutros sítios. Talvez por isso os meus avós falavam não tanto do céu, mas sim do telhado, quando queriam nomear os lados do mundo. Uma criança sem pais é como uma casa sem telhado. Nada é pior que uma casa descoberta. Por aí pode chegar a morte.
O avô Setrak não sabia ao certo o ano do seu nascimento. Lembrava-se apenas que tinha nascido na altura da colheita, e para ele isso era suficiente. Mais tarde, quando os anos ganharam significado para ele, começou a dizer que nasceu com o século. Era mais fácil de contar.
Eram cinco irmãos: dois rapazes e três raparigas. Macruhi, a mais velha, tinha casado em Erzerum. Depois Huratiun, Maro, o avô, e a mais nova, Satenig. Macruhi morreu na época dos massacres. Os soldados turcos retiraram-se numa noite e deixaram os bandos curdos atacar as colunas dos deportados, a caminho de Alepo[10]. Macruhi e o seu marido foram cruelmente assassinados. Do filho deles nunca mais se soube nada.
Os Melikian recusaram juntar-se às colunas que iam em direção à Deir ez-Zor e quando os soldados cercaram a aldeia, Maro foi levada junto com outras raparigas. Numa noite, conseguiu fugir e antes de os guardas se aperceberem, atirou-se das rochas, para as águas do Eufrates. Em sua memória, o avô batizou a sua filha mais velha com o mesmo nome, Maro.
O avô estava em Erzerum, em casa de familiares, com a avó dele, a mulher do Haciadur. Quando voltaram, viram a aldeia em chamas. Harutiun, o irmão mais velho, correu ao encontro deles e contou-lhes os horrores que estavam a acontecer. A avó, demasiado velha para poder correr com eles, encorajou-os a fugir. Esconderam-se na mata, mas, sem muita habilidade para isso, foram logo apanhados. Esta parte o avô só havia contado uma vez na vida. Quem nos disse o que aconteceu foi o primo Khoren, que a soubera numa certa circunstância e que mais tarde a contou. O comandante dos janízaros pô-los à sua frente e obrigou-os a ajoelhar. Tirou a espada e matou o irmão mais velho, Harutian. Em arménio Harutian significa «ressurreição». Talvez algum dia, quem sabe…
Depois aproximou-se daquele que havia de ser meu avô, e que chorava com os olhos fitando o chão. Puxou-o pelos cabelos até que o jovem foi obrigado a encará-lo. «Olha bem!», ordenou o comandante, virando-lhe o olhar em direção à aldeia que estava em chamas, aos pés da colina, e ao cadáver do seu irmão. «Sabes qual é o meu nome?» Com os olhos lavados em lágrimas, o meu avô fez sinal que não sabia. O comandante disse o nome e obrigou-o a repetir. E acrescentou: «Tu vais viver! És suficientemente crescido para compreenderes. Vais contar a todos quem sou eu e o que fiz, a ti e ao teu povo!» O avô nem queria acreditar que ia escapar com vida. Só depois de o pontapear com as botas várias vezes, como se fosse um cão vadio, começou a afastar-se, primeiro desconfiado, e depois correndo com as pernas a tremer, mas muito velozes, de rapaz novo. Daquele comandante vingou-se da única maneira que soube: não o esqueceu, mas nunca lhe proferiu o nome.
Da aldeia dele não há memória de alguém ter escapado com vida. Salvo a irmã mais nova, Satenig, a quem ele procurou anos a fio, já depois de se ter tornado negociante em Craiova[11] e de ter posses suficientes para pagar as buscas pelos orfanatos das congregações estrangeiras. Passados vários anos, recebeu uma resposta de um orfanato de raparigas, justamente de Alepo. Enviou dinheiro para ela e para alguém que a acompanhasse. No porto de Constança, para ter a certeza que o meu avô era o irmão dela e para poder entregar-lhe a rapariga, o acompanhante pediu-lhes em separado, que dissessem os nomes dos avós, dos pais e dos irmãos deles. Era como uma genealogia fúnebre. Todos já tinham morrido numa aldeia da montanha, perto de Erzerum. Ao comprovar que choravam os mesmos mortos, o acompanhante entregou-lhe a irmã. Satenig casou mais tarde com um comerciante de Braila. Depois da guerra, emigrou para os Estados Unidos e acabou por morrer lá. Só a conheci pelas fotografias.
O avô escondeu-se por onde pôde. Uns turcos, pessoas de bem, que tinham conhecido o pai dele, abrigaram-no no estábulo, ao lado dos animais, e curaram-no de tifo. Tinha adoecido pelo caminho, comendo como os animais e dormindo ao ar livre, apanhando frio. Quando se recuperou, os turcos deram-lhe alimentos para o caminho e um fez para enfiar na cabeça, para passar despercebido. O avô partiu em direção a sul, para o monte de Moisés, ou Musa Dagh, como diziam os turcos. Sabia ele que lá atracavam navios franceses que recolhiam os arménios em fuga. Caminhava de noite, contornando os caminhos principais, evitava o galopar dos bandos curdos e as rotas das colunas de deportados, em direção aos desertos da Mesopotâmia. O primo Khoren contou como o avô se sentava e chorava, com o fez no colo, olhando para as águas do Eufrates onde boiavam os cadáveres e que se tinham tornado densas e avermelhadas, como umas tranças, como antigamente talvez tivessem sido as águas do rio da Babilónia[12]. «Não deitaste fora o fez?», perguntei-lhe depois da avó Sofia me ter contado a história da lamentação nas margens do Eufrates. «Porquê?», perguntou o avô. «Tinha sido oferecido por uns turcos generosos e, seja como for, protegia-me do sol. Enfiei-o na cabeça e continuei a caminhada. Que sabes tu? Tinha de sobreviver.» Depois o avô picou um dedo com uma agulha e mostrou-me uma gota de sangue. «Consegues fazer isso?» Tinha medo, mas também vergonha do meu medo. Deixei-o picar-me, de olhos bem fechados, e apertei o dedo com muita força para não doer. Saiu então a minha gota de sangue. «Eu sou velho, e tu ainda és uma criança, mas vê como o teu sangue é tão vivo como o meu. Este é o amor à vida.» O avô queria às vezes suavizar as lembranças e então falava duma maneira bizarra sobre o sangue. Era um filósofo do sangue. «O sangue é mais insubordinado que a carne», dizia ele. «Por isso, dizem, a voz do sangue ou a maldição do sangue.» Ou então: «Quando o sangue cansa, pegas numa bengala. De resto, o sangue é como uma bengala interna. Cada um apoia-se no seu sangue.» Outras vezes dizia: «O sangue volta sempre como um bicho de focinho húmido e morde-te. Não se farta. Deus nos livre se se fartar!» Às vezes encorajava-me dizendo: «Nunca te esqueças, o teu sangue é como uma espada que se enfia na terra.» Provavelmente uma parte dele tinha ficado para sempre nas margens do Eufrates e conversava com as águas ensanguentadas. As pessoas conversam às vezes com os seus próprios pensamentos. O meu avô Setrak conversava com o próprio sangue.
Chegou tarde de mais aos pés do monte Musa. As batalhas tinham cessado e os navios com que tinham resgatado os últimos guerreiros do monte tinham-se ido embora há muito tempo. Então o meu avô virou as costas ao mar e começou a subir em direção ao norte, em direção à Rússia. Longo caminho: Erevan, Tiflis[13], Rostov do Don.
Ia para Europa. Esta era a tradição da família, os jovens, como noutros tempos Pedro o Grande fizera, viajavam pela Europa para aprender ofícios, as boas maneiras e falar como os europeus. Depois regressavam a casa e casavam. Foi assim que escaparam ao massacre alguns dos seus primos mais velhos, da família dos Melikian: Oskian, Artur, Melcon, Calust, Nshan e Khoren. Das cartas que se liam em tempo de paz, aos domingos na igreja da aldeia de Zakar, o meu avô soube que estes tinham chegado à Roménia. Agora também ele caminhava para lá, em direção a oeste. Entretanto o mundo à sua volta também tinha mudado. Via os soldados sem galões, arrastando as suas mazelas, grupos espalhados que se dispersavam ao ouvir o galope da polícia imperial. Estava a aproximar-se a Revolução russa.
Entre colunas de soldados, carroças com aldeões e grupos de mendigos, o avô Setrak chegou a Odessa. Empregou-se num barbeiro arménio, que o recebeu como ajudante, com o intuito de lhe deixar mais tarde o negócio e de o casar com a filha. O avô varria o cabelo cortado e lavava as toalhas. Um dia, apareceu um jovem montado no cavalo, prendeu o cavalo à porta do barbeiro e entrou. Quando o avô lhe colocou a toalha aos ombros, os olhares cruzaram-se no espelho. Há coisas que a vida prepara de tal forma que até ela se surpreende. Aquele jovem era precisamente o primo Khoren, mandado pelos outros primos, à procura dos parentes. Khoren não esperou por fazer a barba. Tirou a toalha, agarrou o avô pelo braço e disse-lhe: «Um Melikian não pode ser criado de ninguém!». Montaram os dois o cavalo e partiram em direção a Craiova, já que o avô lhe tinha dito, entre soluços, que não valia a pena continuar a caminhada para leste, porque os outros Melikian estavam mortos. Até Satenig, disse ele, sem imaginar o encontro que só viria acontecer anos mais tarde no porto de Constança. Foi aí que contou a única vez na vida sobre a morte de Harutiun, o seu irmão mais velho.
Os primos fizeram uma coleta e ajudaram-no a abrir uma loja de especiarias. Depois o avô, com o seu trabalho árduo, criou uma cadeia de lojas. E construiu duas fileiras de casas. Nas fotografias aparece muito bem vestido, usa chapéu-panamá, relógio com corrente e laço. Encarou, com a mesma serenidade, as vicissitudes da História. Por ser apátrida, com passaporte Nansen, os liberais concederam-lhe com muita dificuldade a autorização de comerciante. Uns legionários[14] pensaram que era judeu e, no tempo da rebelião, pouco faltou para lhe incendiarem as lojas. Os comunistas tiraram-lhe tudo, e mal conseguiu escapar à prisão. A sua sorte foi, durante a Segunda Guerra Mundial, ter enviado pão aos prisioneiros russos, entre os quais estavam alguns arménios. Quando o Exército Vermelho ocupou Craiova, um oficial, ex-prisioneiro dos alemães, lembrou-se dele e assim se livrou da prisão. Passou grandes dificuldades até se reformar, como guarda-noturno do Liceu „Fratii Buzesti” e outros empregos semelhantes que apenas davam para não morrer à fome. Nunca odiou ninguém e aceitou sempre o destino que lhe foi dado. Era um velho alegre e sábio, nunca fez mal a ninguém e perdoou a todos os que lhe causaram sofrimento.
Nos últimos anos, em Craiova, levava uma vida simples. De manhã, acompanhava-o ao parque, ao redor da Igreja Santo Dimitri. Jogavam às cartas num grupo de quatro. Um dos parceiros era o Sr. Coronel, cujo verdadeiro nome nunca soube. O Sr. Coronel vestia roupas elegantes e tinha uma bengala com castão em prata. Tinha passado vários anos na prisão, como legionário. Os outros dois, bochechudos e com roupas demasiado apertadas, eram os camaradas Botrinca e Butnaru. Botrinca, reformado da Câmara Municipal, tinha planeado a detenção do meu avô, anos atrás. Agora, todos juntos, comunista, legionário, comerciante e proletário, jogavam às cartas e conversavam sobre medicamentos e o estado do tempo. Esta foi a forma deles se reconciliarem, passados muitos anos, com a História. A partida de cartas era o seu Tratado da Potsdam.
De resto, principalmente nos dias frios de inverno, o meu avô materno, Setrak Melikian, comunicava com o mundo. De madrugada, às seis, ouvia o noticiário da Rádio Bucareste. Às onze ouvia a Rádio Moscovo, em romeno. Antes do almoço, quando conseguia sintonizá-la, era a Rádio Tirana. Esta era a que mais o divertia. Pelas duas e meia ouvia a Voz da América em romeno e depois a Rádio Liberdade, em arménio. À tarde ouvia Emil Georgescu da Radio Europa Livre, com o programa “Atualidade romena”. Depois, pelas sete da tarde voltava a ouvir A Voz da América e, um pouco mais tarde, as notícias da BBC. Depois das dez da noite, sorvendo com os olhos entreabertos a sua infusão de tília, ouvia “Um dia numa hora” na Rádio Bucareste. Virava-se para mim e dizia: «Estás a ver? É tudo uma mentira!» No dia seguinte começava tudo de novo. E ria, batendo palmas. Por cima de uma história sangrenta, dolorosa e odiosa. Ele ria-se.
Foi um homem saudável. Não incomodou ninguém, nem sequer as suas doenças. Morreu de frio, no Inverno gelado de 1985. O gás mal acendia. Provavelmente, devido ao frio, o sangue, o seu grande amigo, não conseguiu correr mais. Cheguei a tempo de lhe tirar do bolso o terço de caroços de azeitona, que guardo até hoje no meu bolso do peito. Quando o colocámos no caixão era leve como um pássaro.
CANÇÃO ALEATÓRIA. Os meus avôs, Garabet Vosganian e Setrak Melikian, compreenderam do seu século apenas o quanto é difícil morrer na mesma terra que nos viu nascer. Os velhos arménios da minha infância não tiveram nenhum túmulo para chorar os seus pais. Levaram os túmulos com eles, por onde vaguearam, tal como os judeus colocam a arca e constroem à sua volta um templo, assim os arménios desciam os túmulos dos ombros e aí construíam a sua casa.
Muitas vezes os sinto lá, no Céu. O meu avô Garabet Vosganian, cheio de tato e comedido nas palavras. O meu avô Setrak Melikian, sorrindo e brincando com o terço entre os dedos. Jogam ghiulbahar. «Os dados têm que ser bem agitados na mão, para saber o que pretendes deles, diz o avô Garabet, claro, se souberes primeiro o que queres. Ei-los!, alegra-se ele. Um-um!» O avô Setrak não se chateia. Ri e dobra-se por cima dos telhados. «Se saiu um-um, vai haver guerra outra vez. Olha ali, naquele canto distante.» Realmente de baixo, via-se subir umas colunas de fumo sombrio. O avô Setrak sopra na mão e atira os dados. «Seis-seis!», diz ele alegre, batendo palmas. Vês?, diz ele olhando para baixo. As nuvens desapareceram. Há paz outra vez.» «Estás a fazer batota!, diz o avô Garabet. Da próxima vais misturar os dados na chávena.» «Grande coisa que fizeste, goza o avô Setrak. Cinco-quatro! Não chega nem para um dilúvio. Olha aqui!, e franziu a testa. Três-dois. Agora é que não se passa nada. Nada de novo!» «Deus nos livre de novidades!», diz o avô Garabet. Setrak olha para os dados com os olhos bem abertos. «Que é isso? Olha, saíram os nossos rostos, o meu e o teu!» «Baralhaste tudo, diz o sábio Garabet. Estes são dados antigos, de outras pessoas. Devolve-lhes os dados!» «Vou dar a quem? Só cá estamos nós!» O avô Garabet levantou os ombros. «Está bem! Se os dados mostrarem outra vez os nossos rostos, não conta. É a tua vez.» E continuam a jogar, organizando com os seus dados o mundo, as guerras, o nascimento, os milagres e, acima de tudo, o calvário.
Sentia-me protegido, entre as formas do fogo, os aromas da infância, árvores e fantasmas.
Ainda assim, eram tempos turvos. Às vezes, o avô Garabet e o nosso vizinho do lado, Sahag Sheitanian, sussurravam. Um dia, na casa da frente, apareceu um velho que não conhecia, Carol Spiegel. Durante um tempo, o velhote só saía até ao pátio: sentava-se no sofá, olhando para o vazio. Depois vi-o, pelas ripas da cerca, como chegava até ao portão e olhava pela rua acima. Numa manhã, saiu para varrer as folhas secas do passeio. Passados mais uns dias, ao anoitecer, ganhou coragem para bater à nossa porta.
Não sabia o que é a prisão. Só mais tarde compreendi a explicação dada pelo meu avô, mas na altura parecia-se mais com um jogo: «A prisão é o sítio onde o mundo dos outros é enorme, e o teu mundo o mais pequeno possível.»
Carol Spiegel tinha sido aquilo a que chamam de colaboracionista. Tinha trabalhado na Câmara durante a Guerra. Sendo alemão[15], era tradutor-intérprete. De modo geral, a paragem das tropas alemãs na nossa cidade correu relativamente bem. Os alemães deixavam a população em paz, não se embebedavam nem faziam barulho. Quando os soviéticos chegaram, foi completamente diferente. As raparigas ficavam fechadas durante o dia a sete chaves, e os taberneiros tinham trancado as bebidas.
Quanto aos bombardeamentos, foi ao contrário. Os dos russos eram mais fáceis de aguentar. De todas as desgraças que se abateram sobre a cidade, durante a guerra, os meus avós falavam sobretudo do grande terramoto de 1940. Não dos bombardeamentos. «Para quê escondermo-nos?», perguntava o meu avô Garabet. «Quando vinham os aviões americanos, estávamos descansados. Eles procuravam os quarteis alemãs da estrada, fora da cidade. Bombardeavam-nos com tanta precisão, de um lado e do outro da estrada, que não ficava pedra sobre pedra, mas a estrada ficava intacta. Quanto aos russos, também não havia muito a temer. Nunca percebi bem o que eles procuravam, mas fosse lá o que fosse, nunca acertavam. Só houve uma noite em que caíram duas bombas no nosso bairro. Nenhuma explodiu. Uma ficou subterrada num quintal, entre legumes, a outra caiu em cima duma casa e furou o telhado. O homem enterrou a bomba, para não assustar as crianças, e arranjou o telhado.
O avô tinha passado pelas duas Guerras. Não tinha lutado, apenas as tinha observado. Os que lutaram tinham compreendido menos.
Por isso, o avô Garabet contava coisas sobre elas. Nas suas histórias, os vencedores nem sempre coincidiam com os dos livros. «Não te precipites, dizia ele. Raramente aquele que perece que venceu é o verdadeiro vencedor. E a História foi feita pelos vencidos, não pelos vencedores. Vencer é, ao fim ao cabo, uma maneira de sair da História.» Pegava no grande livro. «Este é Vartan Mamigonian. E esta é a batalha entre arménios e persas, no ano de 451, na planície de Avarair. As nossas tropas foram dizimadas até ao último soldado. Os persas pensaram, contentes, que já chegava para aquele dia e foram-se embora com a ideia de voltar e conquistar todo reino dos arménios. E o que aconteceu no final? Os persas não voltaram, foram obrigados a desistir da sua religião e, em vez de continuarem o culto do Sol, passaram ao Islão. Em compensação, nós mantivemo-nos cristãos até hoje. Ou seja, quem venceu foi Vartan Mamigonian e a sua hoste massacrada.»
E o avô Setrak, o pai da minha mãe, filósofo do sangue, dizia: «O sangue é menos obediente que a carne. Vencer não é o poder de derramar o sangue dos outros – isto é desprezo ou ódio – vencer é o poder de derramar o próprio sangue». E o avô Setrak, que media a História e os seus vencedores pela força do sangue, sentava-se com as mãos juntas, no colo, para que o sangue fizesse um círculo e descansasse.
Por isso mesmo, o avô Garabet pensava que os que fazem História na realidade não são os generais, são os poetas e as verdadeiras batalhas não devem ser procuradas debaixo dos cascos dos cavalos. Mas até o avô não ficou esclarecido e teve que admitir que as leis da guerra não nos são desvendadas totalmente. Porque não era só ele que sabia a história da bomba enterrada no quintal. Chegou aos ouvidos de algumas crianças que começaram, em segredo, a desenterrá-la. Existe uma realidade, como nós a vemos e outra, a das sementes. Sem se darem conta, as crianças tinham misturado as duas realidades. E as sementes da guerra, enterradas há tanto tempo, espalharam-se pelos ares. Sergiu, um amigo meu mais velho, foi morto na hora, pela explosão e o pequeno Tofan mal sobreviveu, carregando até hoje no peito cicatrizes de uma guerra que não foi dele. «Portanto, concluiu o avô, a guerra ainda não acabou.» «Qual guerra?» perguntei eu. «Só há uma Guerra. Só que rebenta sempre noutro lugar, como uma urticária. Quanto mais te coças, mais ela se inflama. Afinal a História é apenas uma longa comichão.»
Um dia apareceu um homem, vestido com uma espécie de casaco de pele, e questionou o avô sobre Carol Spiegel. O avô falou pouco, passou o tempo a levantar os ombros. Ao anoitecer, veio Carol Spiegel perguntar sobre o homem de casaco de pele. O avô levantou outra vez os ombros. Assim, não convenceu nenhum deles. Apesar de tudo, nenhum insistiu. O desconhecido não nos visitou mais e Carol Spiegel morreu uns dias mais tarde. No funeral, ao lado da senhora Spiegel só estiveram o meu avô e o cunhado dele, Sahag. Os outros nem sequer tinham reparado que, por pouco tempo, a senhora Spiegel usou vestidos coloridos, em vez do habitual preto com que costumavam vê-la desde o fim da Guerra. Para eles, Carol Spiegel tinha desaparecido deste mundo muito antes de morrer. Como uma chuva que escorre pela testa antes de começar a cair no céu.
Na infância, vivi num mundo de sussurros. Eles eram pronunciados com muito cuidado. Só mais tarde compreendi que o sussurro tem outros significados como o carinho ou a oração.
Havia também coisas que eram ditas sem medo. Até por cima do portão, como, por exemplo, quando chegava a carrinha do pão racionado. Outras, apenas se pronunciavam de janela fechada. Ou no banco, no meio do jardim, se ninguém passasse na rua. Mesmo assim, num tom mais baixo, como se houvesse umas janelas ainda por fechar ou transeuntes que não eram visíveis.
Seria mais fácil se as pessoas estivessem perto umas das outras, de cabeças inclinadas, sem a necessidade de se concentrarem tanto para não perder uma palavra. «Ao longe, tudo tem que parecer natural, explicava o avô. Eles que pensem que estás a dizer coisas sem importância, que não te preocupes. Eles que escutem. Enfim, para que me entendas.» E ficavam sentados nos bancos de madeira, com as costas direitas e as cabeças erguidas, falando. Não se inclinavam uns contra os outros quando baixavam o tom da voz. Ouviam os sussurros com uma habilidade extrema. Até Arshag que, por causa do sino era meio surdo, quando não conseguia ler os lábios, pedia para repetir. Mas nunca as palavras sussurradas. Estas, milagrosamente, ouvia-as sempre. Vibravam de outra maneira no ar, e sentia-as através da pele, como os morcegos.
Havia vários assuntos sobre os quais não me era permitido falar. Mas sobretudo, sob a ameaça de castigo, não podia contar a ninguém, nem no infantário, nem a qualquer desconhecido, que em nossa casa, às vezes, se sussurra. «O que estás a sussurrar?» perguntava eu. «Estou a ler», respondia o avô Garabet. «Estás a ler como? Onde está o livro?» «Já não preciso. Já o sei de cor.» «Bom, mas qual é o título do livro? Qual é o autor?» «Quem sabe, talvez tu, um dia.» É o que estou a fazer precisamente neste momento. E é este o nome que lhe vou dar: O Livro dos Sussurros.
Uma visita com quem se sussurrava, em nossa casa, era Hagop Djololian Siruni[16]. Um velho baixinho, com dois tufos perfeitamente penteados por cima das orelhas. As pálpebras enrugavam-se, por trás dos óculos de lentes grossas, tentando fixar os rostos que mal conseguia distinguir. Este esforço dava-lhe um ar de inquietação, que aumentava com o movimento contínuo das mãos, ao ritmo da conversa. Quando lia, inclinava-se sobre as letras, quase até colar os olhos à página. Apreciava sobretudo os livros antigos, impressos com caracteres árabes, dos quais o meu avô tinha guardado alguns.
Siruni tinha regressado, há uns anos, da Sibéria. O avô explicou-me que a Sibéria era um lugar com muita neve, onde os animais, devido ao frio e à neve, são brancos. Apresentei-me perante Siruni com o meu livro, Fram, o Urso Polar[17] e, mostrando as fotografias, perguntei se o sítio onde esteve era tão lindo como no livro. «Ainda mais bonito», respondeu Siruni. Fiquei admirado quando me disse que tinha visto caçadores, mas ursos não.
Siruni e a sua história eram assuntos que a minha família evitava a todo custo. Muito mais tarde, impulsionados pelo escritor Bedros Horasangian[18], começámos a ordenar as coisas e compreendemos. Inclusive o facto de os caçadores que Siruni tinha mencionado serem caçadores de pessoas.
Os meus avôs Garabet e Setrak eram grandes contadores de histórias. Contudo, eles próprios faltavam das histórias que contavam. Como se não tivessem vivido neste mundo. Histórias sem contador, as suas histórias estendiam-se em pergaminhos antigos e anónimos, encontrados em potes de barro. Nenhum falava sobre si. Cada um tornava-se personagem na história do outro, e era preciso procurar constantemente, entre as várias histórias, para saber a continuação. Talvez por isso, a história dos arménios da minha infância é uma história sem fim.
CONTUDO, HISTÓRIA SOBRE SI. Acontecia assim. O meu avô Setrak sentava-se, ao cair da noite, na espreguiçadeira, debaixo da videira, no quintal da casa de Craiova. Deslizava o terço entre os dedos e baloiçava, apoiando-se nos calcanhares. Murmurava. Podia ser tudo, desde oração até profecia.
O meu avô Garabet trancava-se no quarto e cantava. Eram canções estranhas, em turco ou árabe, daquelas que ainda hoje são cantadas pelos dervixes do deserto. O murmúrio do avô Setrak e os cânticos do avô Garabet eram ininterruptos. Respiravam de outra maneira e outro tipo de ar. Era inútil chamá-los naqueles momentos ou bater à porta. Não iriam responder nem abrir.
Entretanto, a guerra tinha acabado. Alguns arménios apressaram-se, naquela divisão confusa, a passar para o lado dos vencedores. Não se pode ser vencedor se não se arranjarem vencidos. Portanto, apresentaram-se à porta da recém-inaugurada embaixada da União Soviética, entregando uma lista de “colaboracionistas” que incluía, de outra maneira nem podia ser, a fina flor da intelectualidade arménia de Bucareste. Como não era difícil arranjar anticomunistas no outono de 1944, depois da primeira lista, os novos colaboracionistas trouxeram outra, e outra. Até os soviéticos sentiram que tinham ultrapassado o limite. Perante as listas sem fim, Sava Dongulov, cônsul da Embaixada e arménio, decidiu, honra lhe seja feita: «Parem! A este ritmo vamos dizimar a comunidade toda…»
O primeiro grupo de dez pessoas, entre os quais Siruni, foi preso em 28 de Dezembro de 1944. Foram levados, da fronteira, numa carruagem fechada, até Moscovo e daí, de camião até Lubianka, sítio onde se fazia a triagem. Sem nenhum julgamento, Siruni foi enviado para o campo de trabalho forçado de Mariinsk. O que tinha de fazer era recolher a resina dos pinheiros. Ou seja, levantar os olhos para os topos, quando o vento e a neve convidavam mas era a tapar a cara. Os sobreviventes deste trabalho árduo, Siruni e o advogado Vahan Ghemigian, o ex-presidente da Associação dos Estudantes Arménios, voltaram da Sibéria com a visão tão fraca que, ao ler, aproximavam tanto a cara das páginas que pareciam enterrar o rosto nas palmas das mãos.
Não tenho a certeza se existiu algo neste mundo, ou até o próprio mundo, antes de eu nascer. Mas conto-vos como se tivesse existido. Estamos no outono de 1952. Os detidos estão no refeitório. Atrás da cozinha, cresceu uma pilha de peixe congelado, trazida de camião e descarregada naquele sítio há anos, desde a criação do campo de concentração. Duas vezes por semana, os presos inaptos para trabalho, partem com picaretas o bloco de peixe e atiram as lascas envidraçadas para as caldeiras, onde o peixe coze até se desprender da espinha, e o gelo se transforma em sopa. Para os detidos com dentes a abanar nas gengivas sangrantes, é uma comida adequada. O cheiro a peixe congela nas paredes da cantina, como luzinhas de Natal. Uma camarada vinda de Moscovo fala das grandiosas realizações que se seguiram à Grande Guerra em Defesa da Pátria. Muitos não sabem russo, mas fingem que compreendem. A camarada pergunta algo sobre a história do PCUS. Os presos arregalam os olhos, em pânico. Os que compreendem russo, porque não sabem responder, e os outros, porque não entendem porque a mulher parou de repente. Então, Siruni levantou-se do seu lugar e respondeu. A mulher olhou-o, incrédula, sentiu o sotaque áspero, caucasiano, e continuou a fazer-lhe perguntas. E Siruni falou longamente sobre a situação do Cáucaso daqueles tempos, citando nomes, datas, guerras e tratados com uma precisão que apenas o gulag e a solidão permitem. De volta a Moscovo, a mulher contou ao historiador Evgueni Tarlé, de quem era assistente, sobre os invulgares conhecimentos do preso de Mariinsk, que, além do mais, sabia arménio, turco, persa e árabe, inclusive nas variantes faladas na Idade Média e preservadas apenas como línguas de culto. Por insistência de Tarlé, a Academia de Ciências de Moscovo obteve a transferência de Siruni, do campo de concentração para o Museu de História de Erevan, com a missão de decifrar os manuscritos antigos.
Cada pessoa vive no mundo, mas principalmente numa imagem do mundo. Naqueles tempos – e quem sabe em quantos outros mais – isso pode ser explicado assim: o nosso nome é por um lado pronunciado e, por outro, escrito. E o nome escrito está na capa de um dossiê. Temos de viver a vida com cuidado. Acordamos, lavamos o rosto, fazemos a barba, penteamo-nos. Quando nos vemos no canto de um espelho ou numa montra, levantamos a cabeça, ajeitamos a roupa. A vida é um cerimonial. O dossiê é a mesma vida, mas apanhada de surpresa. Numa casa onde cada assoalhada tem três paredes, podemo-nos encostar, mas não nos podemos esconder.
Assim, tiveram de abrir um dossiê a Sirudi. E, ao procurar tanto, na vida apanhada de surpresa, os incansáveis encontraram um artigo publicado em 1944, num jornal de Bucareste, «Araz», onde Sirudi lamentava a morte de um amigo, assassinado vilmente, há muitos anos, na União Soviética. A homenagem ao amigo desaparecido, chamado Aghasi Khangian transformava-se numa forte acusação contra Lavrenti Beria, culpado do crime. E não só daquele crime, de muitos outros. Ao contrário de outros, Siruni sabia o que estava a acontecer no país dos sovietes. E quis desabafar. Uma acusação que podia ser facilmente feita numa Roménia aliada com os alemães, mas não numa União Soviética dirigida pela NKVD. Como consequência, Siruni, muito doente e meio cego, foi enviado de novo para um campo, desta vez em Potma, lugar de extermínio. Qualquer tentativa de fuga estava fora de questão. Quando se reuniam em número suficiente, os mortos, empilhados numa carroça sem toldo, eram levados para fora do campo e atirados para uma vala comum. Não havia pressa, com o frio os corpos nunca se decompunham. Para que nenhum preso ousasse tentar escapar, fingindo-se morto, e para terem a certeza que os que saíam estavam bem mortos, os guardas, à saída do campo, partiam-lhes as cabeças com um martelo. Potma ficava demasiado longe do mundo para chegar até lá a notícia da morte do Estaline. Multiplicado em vida, até à exaustão, através de retratos, Estaline gozou também de uma morte infinitamente multiplicada. Um dia, desapareceu o retrato da cantina. Depois, uns meses mais tarde, foi a vez da fotografia de Beria do escritório do comandante. O artigo acusatório de 1944, do jornal «Araz», era agora providencial. O próprio Voroshilov assinou a ordem de libertação, e Siruni foi transportado com honras até Erevan. E de lá, em 1955, para casa. Onde o mundo tinha mudado completamente. A família fora devastada, os arquivos e manuscritos confiscados, os amigos, em grande parte, estavam desaparecidos. Um deles, Garabet Vosganian esperava-o, no banco de madeira do pátio, contemplando os carros da História, sobrecarregados por canhões, como se afundavam, empurrados com dificuldade, por silhuetes esfarrapadas.
No Livro dos Sussurros estão escritos os nomes dos mortos. Sobre eles falavam, quase sem mover os lábios, Siruni e o avô Garabet. Depois do primeiro lote detido em Dezembro de 1944, seguiu-se o segundo, no dia 24 de Abril de 1945. O mais jovem dos detidos, Levon Harutiunian, morreu em último lugar, em 1999, em Los Angeles. Foi ele que me contou a história. O meu avô tinha muita dificuldade em contar como os arménios chegaram a trair-se uns aos outros. O avô aproximava-se daqueles tempos com algum receio, porque naquela altura tinha sentido um dos raros impulsos de lutar. Fora disso, manteve-se afastado o quanto pôde, olhando de olhos bem abertos e tentando compreender. Mas até para isso é preciso ter coragem. «Pensa, dizia ele, tens de estar preparado para enfrentar a realidade, aconteça o que acontecer. Deves poder estar virado de frente, ao mesmo tempo, para os quatro ventos. Ser herói é uma forma de cobardia. Não podes aguentar o sofrimento, e então tentas acabar com ele, desesperado e a qualquer preço.» Contudo, a nós, as crianças, tentava educar-nos no culto dos heróis. Contava-nos sobre o lendário Haig[19], sobre Ara, o Belo[20] ou sobre Tigran, o Grande[21]. Filosofava, à sua maneira, falando sozinho, a olhar pela janela: «A única coisa que as pessoas têm em comum são as histórias. Quando se diz que duas pessoas são da mesma família, quer dizer-se que ouviram as mesmas histórias. Sobre heróis podemos sempre contar histórias, porque têm sempre o mesmo começo e o mesmo fim. Sobre os que aguentam, sobretudo aguentam compreendendo, não podemos contar, porque o sofrimento deles não tem fim. E histórias sem fim, quem as conta e quem as quer ouvir? Para isso nem sequer é preciso ouvir, basta olhar pela janela. Ou, como no passado, pelas ameias das muralhas da fortaleza…» Mas até as fortalezas se desmoronam, as casas também, com janelas e tudo. «Não tem nada a ver, resmungava o avô. Encontramos sempre uma janela por onde olhar. E haverá sempre uma fortaleza por conquistar.»
Eu apenas conhecia, sem saber na altura, o fim da história. Ou seja, alguns sapatos, não necessariamente aos pares, que calçávamos no quintal, quando chovia. Os mais apertados, para não trazer lama para dentro de casa e para ser mais fácil descalçá-los na entrada, o avô tinha-os levado ao sapateiro, mandado cortar os calcanhares, transformando-os em chinelos com atacadores.
Este é, portanto, o fim da história. O princípio ainda há pouco comecei a contá-lo. Neste segundo lote de detidos, em que entrava Levon Harutiunian, tinha sido levado também o nosso tio, Ervant Hovnanian, e o seu irmão Vagharshag. Estávamos na Semana Santa. A igreja arménia de Focsani tinha um pátio largo, guardado por castanheiros gigantes. Naqueles tempos, havia muitos arménios e a igreja enchia na altura das festas. Tanto que o homem que puxou o meu avô pela manga, depois de ter procurado longamente com o olhar na multidão, teve que criar um espaço e aguentar os olhares repreensivos dos outros. Quando o avô o acompanhou até ao pátio da igreja, os fiéis, desta vez afastaram-se com respeito. O avô tinha um ar imponente no seu traje de sacristão e as pessoas pensavam que isso fazia parte da missa. O desconhecido mostrou-lhe um papel amachucado, que alguém tinha atirado de um camião, numa esquina. O camião era militar, coberto com o toldo. O homem estava assustado, mas tinha conseguido realizar o pedido, escrito à pressa naquele papel: “Para o sacristão da igreja arménia”. Era Sexta-Feira Santa, e pensou fazer um ato de boa vontade, sem saber o nome dele. Não perguntou o que estava lá escrito. Não queria saber mais nada. Era melhor assim.
O papel tinha algo escrito em arménio. Uma única palavra: «Vivemos». O avô entrou na igreja e, sob o olhar perplexo do Padre Aslanian, puxou de lado o Sahag Sheitanian, o outro sacristão. Assim, vestidos em trajes religiosos, começaram a andar pela Rua Grande, por entre as lojas judias, que estavam meio-tombadas desde o terramoto, em direção à loja deles, onde havia um telefone. Ligaram para Bucareste, e a suspeita confirmou-se. Tia Nvart, a mulher de Ervant Hovnanian, chorava com soluços. Os soldados soviéticos tinham invadido a casa, e eles foram empurrados com a cara contra a parede. Reviraram tudo e enfiaram numa mala papéis, livros, insígnias. Levaram Ervant. Fizeram o mesmo com o seu irmão, Vagharshag, e mais oito «colaboracionistas». Uns contavam que tinham sido fuzilados contra o muro do mosteiro Vacaresti, outros que deviam estar nos calabouços da prisão Jilava. Correram até ao mosteiro, mas os muros pareciam tranquilos e ninguém na vizinhança tinha ouvido tiros. «Significa que estão a levá-los para a Sibéria», disse o avô, como única alternativa à morte. «Sibéria, meu Deus! Mas levaram-no de chinelos; Vão congelar-lhe os seus pés…» disse, num pranto, a tia Nvart.
O avô e o tio Sahag voltaram à Igreja, onde a missa estava quase a acabar. Aconselharam-se com o Padre Aslanian e com os outros membros do conselho paroquial. O padre manteve a igreja aberta, para que todos pudessem voltar com os sapatos que tivessem em casa. Ohanes Krikorian descalçou os sapatos que trazia nos pés e deixou-os na caixa grande. Conseguiram juntar uns dez pares. Ou melhor, uns vinte sapatos porque alguns tinham trazido um sapato só, sem par. Melhor que nada. O avô arranjou-os, pelo tamanho, esquerdo e direito, e contou sete pares. Ainda que os sapatos do mesmo par tivessem cores diferentes. O importante era ser forrados por dentro e ter a sola inteira. Krikor Merzian, o sapateiro da Rua Grande, trouxe a sua forma e reforçou as solas, com pequenos pregos de madeira. Ele tinha visto, em frente à Câmara, um camião parecido com aquele que o desconhecido tinha descrito.
Nas memórias de Levon Harutiunian conta-se que os detidos foram tirados do camião e amontoados numa sala, vigiados por soldados armados, encostados à porta. Faziam turnos para os obrigar a estar sempre em pé, acordados. Quanto mais cansados ficavam, mais fácil era vigiá-los. Os mais debilitados, como Vagharshag Hovnanian, tinham que ser apoiados, pois se caíssem, os soldados levantavam-nos aos pontapés.
O avô, que falava corretamente romeno mas também russo, aproximou-se dos muros da Câmara, tentando espreitar pelas janelas. Da esquina surgiu um guarda que o interpelou em russo e agarrou-o pelo casaco tentando empurrá-lo lá para dentro. O avô puxou o braço bruscamente, e o guarda largou-o, mostrando-lhe com a arma o caminho a seguir, pela estrada fora.
Ninguém pode dizer que sabe ao certo o que é o silêncio, se não ouvir, nas costas, o barulho de uma arma a ser carregada. O avô começou a afastar-se, com alguma relutância, olhando sempre para trás. Então, o guarda carregou a pistola- metralhadora. E fez-se silêncio. Aí, o avô Garabet, desatou a correr, junto aos muros, preparado para que, ao menor barulho, se atirasse ao chão e fosse confundido com as próprias pegadas.
Levon Harutiunian continua a história. Logo de madrugada, os mais jovens amparando os mais velhos e cansados, mandaram-nos subir de volta, para o camião. Tinham sede. O camião parou na estrada, perto do lugar onde passa o rio Milcov. Beberam água do rio, ajoelhados à sua beira, e com a mesma água lavaram o rosto. A partir da fronteira, o caminho foi o mesmo que tinha sido para o lote anterior, detido quatro meses antes. Lubianka, a triagem, e depois a prisão Lefortovo, com os seus muros grossos, do tempo da czarina Catarina, onde nem a forma primária de liberdade, ou seja, a de escolher morrer, era permitida. Os detidos dormiam com a luz acesa, com os braços à vista, por cima do cobertor, não fosse algum deles arranjar um objeto cortante ou usando simplesmente os próprios dentes, cortar as veias e assim enganar os guardas, morrendo às escondidas. E no primeiro andar estendia-se uma rede metálica com o propósito de os impedir de acabar com a vida, caindo sobre o cimento do rés-do-chão. Os detidos eram mais úteis vivos, já que qualquer um deles podia, através da sua confissão, arrastar outros para a prisão. Ali começou o isolamento. Foram fechados em celas separadas, despidos, revistados até no ânus, depois de terem sido obrigados a fazer vinte flexões, depois vestidos com camisas e ceroulas de presidiário. «O meu tabaco ficou com Sarkis Saruni», respondeu Harutiunian ao primeiro inquisidor que perguntou se fumava. «Não temos ninguém com este nome», chegou a resposta cortante. «Mas acabamos de nos separar…», insistiu o então jovem Harutiunian. «Já te disse que esta pessoa não existe!», disse o inquisidor, dando um murro na mesa. Um dia, havia de descobrir que já não existia nenhuma pessoa com o nome Levon Harutiunian. Agora chamava-se 7-35. «Como te chamas?», perguntaram-lhe, assim que acabou de descer da carruagem, com as pernas dormentes, no campo de concentração de Krivosceokovo, um subúrbio de Novosibirsk, nas margens do rio Obi. «7-35!», gritou Harutiunian, para se fazer ouvir, por cima do ladrar dos cães, seguros com correntes, mas também instigados a ladrar pelos guardas. «E o resto?», perguntou o oficial, do portão do campo, por cima do qual estava um cartaz que dizia «RUMO À LIBERDADE, ATRAVÉS DO TRABALHO». Ou seja, este é o teu nome, mas qual é o teu apelido? «58!», gritou de novo Harutiunian, o que significa «inimigo do povo». Pertencia agora a outra família, numerosa, errante e entorpecida, espalhada por toda a Sibéria, a dos elementos sociais perigosos, inimigos do povo, decretados assim através de um artigo do Código Penal.
Harutiunian foi libertado após onze anos de prisão. A República Popular Romena recebeu-o de várias maneiras. Vendo-o na Gare do Norte, vestido com roupa de campo de concentração, um homem comprou umas roscas e deu-lhe. Um outro aproximou-se dele para lhe perguntar sobre um familiar desaparecido. E à saída da estação, esperava-o a patrulha militar que o transportou até ao pátio da Polícia Secreta, de Calea Rahovei. Aí, foi-lhe entregue um certificado emitido pela Embaixada da União Soviética, como uma espécie de diploma acordado aos trabalhadores de quadro de honra.
CERTIFICADO. Emite-se ao cidadão Levon Harutiunovici Harutiunian, nascido em 1913, este certificado para confirmar que esteve na URSS de 8 de Maio de 1945 a 24 de Setembro de 1955. Durante a sua estada na URSS, Harutiunian L. H. desempenhou várias funções. Ultimamente trabalhava como economista, chefe de um sector de transformação da madeira. Teve um comportamento exemplar.
Precisamente. No momento da sua detenção pesava 82 Kg; quando foi libertado tinha 50 Kg. Quando o aborrecimento fazia com que os guardas ficassem ternurentos, chamavam-lhe tonki-zvonki, ou seja, magrinho-sonoro, os ossos batiam uns contra os outros, tilintando. Perdera quase todo o cabelo e, nas têmporas, ficara apenas o suficiente para parecer que tinha por cima das orelhas duas ferraduras prateadas. A mão esquerda tremia um pouco e por isso, quando fumava, segurava o cigarro por baixo da mesa, escondido, para evitar que o vissem. Também tinha perdido os dentes. Homem caridoso da Gare do Norte, que ofereceste roscas ao desconhecido com roupa de campo de concentração, a tua bondade foi mais do que aquele homem podia receber! Só que Harutiunian tinha aprendido a não ter pressa. Mastigou entre as gengivas o pedaço seco, devagarinho, até o amolecer.
A sua casa, agora umas águas-furtadas, de teto baixo e estreita, recebeu-o com muita alegria. Esperavam por ele os amigos, também eles libertados: Siruni, Arshavir Acterian[22] e Vahan Ghemigian. A fotografia conservou-se. No verso, Arshavir escreveu: «Quatro presidiários». Por outras palavras, a prisão não chega e passa, é como uma humidade que, quando nos apanha, entranha-se nos ossos, levamo-la por dentro. Arshavir queria dizer que existem prisões de onde, por mais que as fechaduras estejam destrancadas e as portas abertas, nunca nos conseguimos libertar. Existe sempre mais uma porta que não conseguimos abrir. E ninguém nos pode ajudar, ninguém consegue empurrá-la connosco, porque só nós a vemos.
E os quatro presidiários foram visitar o quinto, Hovhannes Babikian. Esperava-os de pé, encostado na bengala. Vahan, que sabia o quanto estava doente, quis ajudá-lo a deitar-se. «Parvoíces!», respondeu Babikian. «A cama é para dormir. A morte recebe-se de pé.» Quando desceram, ainda o ouviam a cantar Cilícia Minha, saudades da terra natal. Acabou a canção apesar de, contava a sua nora, pelo brilho dos olhos, ter morrido depois da primeira estrofe. Mais ainda, apesar de ainda se ouvir a canção, os lábios já não se mexiam. Subiram de volta, aproximaram a cama do morto que tinha ficado em pé e, inclinando-o como um pilar, deitaram-no na cama. Para não se assustarem os que, ainda que poucos, pudessem vir ao velório e vê-lo em pé. E foi assim que lhe cavaram a sepultura: funda e redonda, como um poço.
Levon Harutiunian trouxe-nos tudo isso escrito, com letra bem legível, com poucas emendas. Garantimos-lhe que íamos publicar o seu manuscrito. «Depois da minha morte», disse ele. Falei-lhe sobre a alegria de qualquer autor quando segura na mão o livro acabado de ser impresso e o folheia. «Poderia ser tentado a lê-lo, não era?», riu-se Harutiunian. Depois, já sério: «A escrita liberta. Escrevi estas coisas, agora posso esquecê-las. A leitura, ao invés, sobrecarrega. Que leiam outros, para não as esquecerem. Eu já as recordei tempo suficiente.»
Acho que o que ele dizia não era de todo verdade. Não podia esquecer de nenhuma maneira. Principalmente porque, sendo o último sobrevivente, carregava também as memórias dos outros. As memórias morrem mais tarde que as pessoas. Como dizia o meu avô Garabet: nenhum homem morre de repente, mas sim, aos poucos. Primeiro o corpo, depois o nome, a seguir as memórias dos outros sobre ele e, por último, as suas memórias sobre os outros.
Brincava debaixo da mesa do pátio, quando os velhos contavam sussurrando ou cantavam canções bonitas com significado triste, ouvidas, por sua vez, na infância passada nas mesetas da Anatólia. «Mandem essa criança embora», dizia uma das mulheres gorduchas, cheirando a água-de-colónia, as tias Parantem ou Armenuhi. «Deixa-o, dizia o avô. Sempre fica alguém para contar. Queres ver que irá ser ele o contador?»
Colocou-me desde pequeno um lápis na mão e rodeou-me de folhas brancas, assim como outras crianças são rodeadas de guloseimas ou brinquedos. Foi assim que me tornei o contador dos episódios da vida do meu avô Garabet. Que, deste modo, vai durar mais um tempo, até perder as memórias sobre este mundo.
Quando chovia e tinha de atravessar o pátio, calçava os sapatos velhos. Estes deixavam marcas fundas na lama, demasiado fundas para uma criança. As minhas pegadas eram-me estranhas. Tinha medo delas. Estavam ensopadas, como as pegadas das ferraduras dos cavalos. Quando a terra secava, ficavam fundas e precisas, como o andar carregado de um soldado. Como se algo me pesasse nos ombros, mordendo avidamente, através do meu andar, a terra. Por isso não as reconhecia. As pegadas que ficavam na lama ou que secavam na terra não eram minhas. Ainda não tinha direito às próprias pegadas porque tinham acontecido demasiadas coisas dolorosas antes do meu nascimento. Aquelas pegadas podiam ser de qualquer um deles. Harutiun Atanasian, Vartan Arakelian, Ervant e Vagharshag Hovnanian, Kevork Kestanian, Ruben Israelian, Kevork Hazarian, Hapet Kasparian, Hosrov Bedrosian, Hovhannes Sahaghian ou Mhitar Harutiunian, perdidos nas terras da Sibéria. Ou as de Jirair Karakashian, Hovhannes Babikian, Zaven Saruni e Serop Surian, que morreram passado pouco tempo após o regresso a casa, habituados, no campo de concentração, a pensar que o mundo ia sobreviver a eles, mas não preparados para enfrentar esta nova realidade em que sobreviviam a um mundo que tinha sido deles e que agora tinha desaparecido.
Mesmo se tivesse chegado a eles a caixa com sapatos, o meu tio Vagharshag Hovnanian, não tinha tido oportunidade de calçar os dele. Cansado da caminhada, foi o primeiro a morrer, em Lubianka, sem chegar à Sibéria. Morreu descalço, o que significa que recebeu a morte, até num lugar como aquele, com piedade.
[1] Aldeia no distrito de Vrancea. Foi aqui que se deu uma batalha, em 1524, pelo trono da Moldávia.
[2] Secretário-Geral do Partido Comunista Romeno, falecido em 1965.
[3] Pastel de massa fina, com nozes ou amêndoas e mel.
[4] Doce de trigo cozido com noz e açúcar, preparado pelos cristãos ortodoxos, que se distribui depois do funeral ou nos aniversários da morte de alguém.
[5] Cidade portuária na Roménia.
[6] Vaso, geralmente em cobre, para a preparação do café turco.
[7] Um dos principais lagos do Irão, que corre no nordeste do país.
[8] Capital e a maior cidade da província do Azerbaijão Oriental, no Irão
[9] Karabakh, ou Karabaque, com melhor grafia. Cf. Sobretudo a região de Nagorno-Karabakh, que, em tempos, fez também parte do Reino da Arménia.
[10] Cidade no noroeste da Síria, uma das mais antigas cidades do mundo.
[11] Cidade no sul da Roménia.
[12] Alusão ao Salmo 136.
[13] Tbilisi, na grafia mais conhecida.
[14] Os legionários eram membros da Legião de São Miguel Arcanjo, movimento fascista e antissemita, também conhecido como Guarda de Ferro. A rebelião a que o autor refere teve lugar em Janeiro de 1941 e foi suprimida pelo general Antonescu, na altura chefe do Estado.
[15] Pertencia à minoria alemã da Roménia
[16] H. Dj. Siruni (1890-1973), historiador, jornalista, poeta e tradutor romeno de origem arménia. Dedicou-se sobretudo ao esto da vida dos arménios na Roménia. Depois da sua morte, foi declarado em 2012 membro da Academia da Roménia.
[17] Livro infantil, de Cezar Petrescu, bastante apreciado na época.
[18] Escritor e ensaísta romeno de origem arménia, nascido em 1947.
[19] Também grafado Haik. Patriarca e fundador dos Arménios.
[20] Lendário herói arménio.
[21] Também grafado Tigranes. Célebre rei da Arménia (95 a.C. – 55 a.C.)
[22] Advogado e escritor romeno de origem arménia (1907-1997).